Por Nando Saad

No Brasil, para entrar no seleto grupo do 1% mais rico, é preciso ter um patrimônio de R$ 4,6 milhões e uma renda mensal de R$ 27 mil. Já no restrito 0,1%, a régua sobe: R$ 26,6 milhões em patrimônio e uma renda mensal de R$ 95 mil.

Esses números impressionam dentro da realidade brasileira, e com razão. Mas quando ampliamos o olhar para fora, para os grandes centros financeiros do mundo, surge uma pergunta incômoda:

O rico brasileiro é realmente rico em termos globais?

Nos Estados Unidos, por exemplo, para fazer parte do 1% mais rico é necessário ganhar cerca de US$ 650 mil por ano – o que dá algo em torno de R$ 3 milhões por ano, ou R$ 250 mil por mês. Ou seja, quase dez vezes mais do que o 1% brasileiro recebe mensalmente.

Em termos patrimoniais, a diferença também é gritante. O americano médio que figura no topo dos 0,1% acumula centenas de milhões de dólares, enquanto no Brasil esse valor gira em torno de R$ 26,6 milhões – algo como US$ 5 milhões na cotação atual. Um número alto, sem dúvida, mas ainda modesto quando comparado com o que se vê em grandes fortunas globais.

A verdade é que o rico brasileiro, quando sai do país, deixa de ser “muito rico” e vira, no máximo, um cidadão de classe média alta em países como Estados Unidos, Suíça ou Reino Unido. Em algumas grandes cidades do mundo, R$ 27 mil por mês (ou cerca de US$ 5 mil) mal cobre o custo de vida básico, especialmente considerando moradia, saúde e educação privadas.

Além disso, o acesso a certos mercados, oportunidades de investimento e até estruturas de proteção patrimonial são muito mais sofisticados fora do Brasil. Isso faz com que o rico brasileiro, mesmo com capital, muitas vezes jogue em desvantagem.

Boa parte dessa limitação vem da própria moeda. O real, desvalorizado e volátil, reduz drasticamente o poder de compra do patrimônio brasileiro no cenário internacional. O que aqui parece uma fortuna, lá fora vira um valor confortável – mas longe do status de elite global.

Além disso, a carga tributária sobre o consumo, a burocracia, a insegurança jurídica e a instabilidade econômica são obstáculos que pesam até para quem tem muito. Ser rico no Brasil é, paradoxalmente, mais caro e mais limitado do que em muitos outros lugares.

Estar entre os mais ricos do Brasil ainda é uma posição de destaque e poder, sem dúvida. Mas é preciso ter clareza: em termos globais, a maioria dos nossos “milionários” ainda está mais perto da classe média alta internacional do que dos verdadeiros bilionários globais.

A régua da riqueza brasileira é alta para dentro, mas curta quando comparada com o mundo lá fora.